Sem sede ou filial em Pernambuco, empreiteira alvo da Operação Barriga de Aluguel adquiriu na RMR, às vésperas do pleito de 2024, 2.104 caixas de papel e 17,1 mil metros quadrados de adesivo vinílico perfurado
Contratada sem licitação pela Prefeitura do Recife desde o final de 2021 para manutenção predial de mais de 600 equipamentos públicos municipais mesmo sem sede ou filial em Pernambuco, a construtora mineira Sinarco – principal alvo do inquérito das empreiteiras do Recife – adquiriu e distribuiu no Recife a poucas semanas do início da campanha eleitoral de 2024 as matérias-primas para produção de milhões de adesivos perfurados e santinhos a uma fábrica de papéis localizada na Muribeca, Jaboatão dos Guararapes, a poucos quilômetros da capital.
A empreiteira está no centro das atenções da Operação Barriga de Aluguel, realizada pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), e anulada pelo juiz Rildo Vieira da Silva em seis de novembro passado, poucas horas após o magistrado receber o processo. Ele é pai do candidato do escândalo do fura-fila. Lucas Vieira Silva foi nomeado pelo prefeito João Campos (PSB) nas vagas de PcD do concurso de procurador judicial mesmo sem ter se inscrito no grupo. Há suspeitas de que a nomeação irregular atendeu a um possível tráfico de influência envolvendo a decisão de anular a investigação, que atinge diretamente a gestão do prefeito e presidente nacional do PSB.

No total, foram 35 toneladas de materiais gráficos comprados pela construtora mineira, com sede no pequeno município de João Pinheiro, a 405 quilômetros de Belo Horizonte. O quantitativo de material possibilitou a confecção de até 51,7 milhões de santinhos e 26 mil adesivos perfurados para cobrir os vidros traseiros de automóveis.

As informações estão sob posse de órgãos de fiscalização federais e foram reveladas a este Blog – com dados documentais probatórios – por fonte ligada à indústria gráfica pernambucana. Referência na fabricação de material gráfico, a empresa Tecpel Importação e Distribuição de Papéis Ltda. foi a fornecedora do material, entregue – sem frete – no dia 28 de julho de 2024, a uma semana do término do prazo para realização de convenções partidárias naquele pleito, que elegeu prefeitos e vereadores em todo o País.
A hipótese investigativa é que parte dos recursos pagos irregularmente pela Prefeitura do Recife à construtora tenha sido desviada para financiamento de campanhas eleitorais na eleição de 2024 na capital pernambucana.

ESCÂNDALO DAS EMPREITEIRAS – O inquérito do MPPE, origem da operação Barriga de Aluguel, realizada em 14 de agosto de 2025 e anulada pelo juiz Rildo Vieira em seis de novembro do mesmo ano, investiga a contratação pela gestão João Campos, no final de 2021, da Construtora Sinarco sem licitação. Desde então, foram firmados seis contratos com a empreiteira, que nunca teve sede ou filial no Nordeste. De 2022 a 2024, a empresa faturou R$ 112 milhões a partir de supostos serviços realizados junto ao município.
Há suspeita de que os recursos foram pagos em duplicidade, financiaram campanhas eleitorais e motivaram enriquecimento ilícito de figurões que orbitam na cúpula da Prefeitura desfilando em automóveis milionários e desfrutando de luxuosas mansões no Litoral Sul de Pernambuco, por exemplo.
Leia: MP investiga contrato da gestão João Campos com firma a 2.000 km do Recife
Os contratos envolveram diversas secretarias da gestão municipal: Saúde, Educação, Assistência Social, Trabalho e Qualificação Profissional, Administração e Planejamento. Todas utilizaram o artifício de adesão a atas de registros de preços (por isso o nome “Barriga de Aluguel”) de consórcios de municípios mineiros, a AMMESF e o Codanorte.
Na prática, a contratação nunca foi efetivamente executada pela Sinarco, que só emprestaria o nome da empresa e o contrato via adesão à ata de consórcios mineiros. Quem tomava à frente eram duas construtoras pertencentes ao mesmo grupo familiar e já conhecidas da gestão do PSB desde o governo do ex-prefeito Geraldo Julio (PSB). Trata-se da Alca Engenharia e da Max Construções, que já eram contratadas oficialmente para realizar as manutenções prediais de vários dos equipamentos públicos em questão, a exemplo de escolas e academias da cidade.
Como boa parte dos prédios (como escolas e unidades de saúde) já tinham contratos com outras empresas para a realização das suas manutenções prediais, há indicativos de que houve diversos pagamentos duplicados, ou seja, as mesmas pinturas, troca de telhado ou reparos nos pisos foram pagos duas vezes.
O enredo também envolve pagamento de reajustes não previstos contratualmente no ano eleitoral de 2024. Apenas da parte da Saúde, foram repassados R$ 3,5 milhões em abril de 2024 de reajustes de serviços realizados em 2022 e 2023. Parte dos recursos tem origem federal (SUS).
Embora o juiz Rildo Vieira tenha argumentado que a operação autorizada anteriormente pela sua colega, a juíza Roberta Vasconcelos Franco Rafael Nogueira, tenha sido feita sem o embasamento necessário, há várias investigações em tramitação sobre os indícios de irregularidades, incluindo inquérito do Ministério Público Federal, da Polícia Federal, representação do Ministério Público de Contas de Pernambuco, auditorias especiais no Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) e no Tribunal de Contas da União (TCU).