Decisão publicada hoje nega pedido cautelar solicitado pelo jornalista Manoel Medeiros; área técnica viu “plausibilidade do direito”, mas alertou para risco de dano reverso (escolas ficarem sem materiais)
Recife, 06/08/2026, 16h42
O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) Ranilson Ramos negou ontem pedido de medida cautelar para suspender os pagamentos da Prefeitura do Recife a quatro empresas pertencentes ao mesmo grupo empresarial para o fornecimento de material de limpeza destinado às escolas e creches da Prefeitura do Recife. O grupo já faturou mais de R$ 60 milhões apenas com a Prefeitura do Recife de 2022 a 2026 e três dos CNPJs foram criados após o início da gestão do mais recente ex-prefeito da cidade. Há investigações sobre suposta fraude nas licitações.
As empresas vendem milhões de itens como água sanitária, detergente, papel higiênico e papel toalha.

De acordo com relatório técnico que embasou a decisão, haveria possível “plausibilidade do direito” para concessão da cautelar, mas não se vislumbrou perigo do dano (necessário para concessão da cautelar). Além disso o parecer destaque possível dano reverso, já que segundo o TCE a saúde dos alunos poderia ser afetado caso houvesse a paralisação da entrega dos materiais.
A decisão não cita, no entanto, uma relevante representação do Ministério Público de Contas, que atua junto ao TCE, sobre o caso, que datada de agosto de 2025. No caso, o MPC solicitou ao Tribunal que apurasse de forma aprofundada as possíveis irregularidades nas contratações e a possível relação entre as empresas e Jatobá para evitar que possíveis prejuízos fossem consumados, visto que os contratos estavam em andamento.
O TCE levou nove meses para iniciar uma auditoria interna, ainda não concluída, e sequer citou os achados da representação na decisão da cautelar, solicitada pelo jornalista e economista Manoel Medeiros.
Há suspeitas, ainda em investigação, de que as distribuidoras tenham sido contratadas a partir de licitações fraudadas e que parte do material pago sequer existisse em estoque. O extrato da decisão foi publicado no Diário Oficial do TCE-PE desta quinta-feira (6). As quatro empresas teriam ligação com a RM Terceirização, uma das maiores companhias prestadoras de serviços de locação de mão de obra, pertencente ao pai do presidente da Câmara do Recife, vereador Romerinho Jatobá (PSB).

De acordo com representação do Ministério Público de Contas do Estado, ainda de agosto de 2025, elaborada a partir de denúncia anônima, Jatobá pode ter relação direta com o grupo empresarial, que seria comandado pelo empresário Brivaldo Jatobá. O político do PSB aparece em vídeos e fotos participando e discursando nas confraternizações das empresas em 2023 e 2024. Os vídeos foram tirados do ar.
As quatro empresas que têm os contratos apurados no âmbito da Corte de Contas estadual são a Jatobarretto Centro de Distribuição Ltda., a Primordial Comércio Ltda., a GCA Comércio Ltda. e a Indústria de Papéis Leão do Norte. As três últimas foram criadas entre 2022 e 2023, enquanto a primeira – a mais estruturada delas – é de 2017. A Jato e a Leão do Norte estão em nome de Brivaldo Jatobá enquanto a Primordial e a GCA, criadas em 2022 e 2023, têm como sócios únicos dois amigos de infância do empresário, George Albuquerque e Caio Figueiroa. Figueiroa já trabalhou na Jato e saiu para abrir a nova empresa.
Leia mais: Sefaz investigou fraudes tributárias em grupo que vendeu R$ 59 milhões à Prefeitura do Recife