Pai de candidato beneficiado por nomeação de João Campos, que mudou resultado de concurso para procurador judicial homologado em 2023, anulou investigação de corrupção na gestão do prefeito
O juiz Rildo Vieira da Silva, pai do candidato que foi nomeada procurador do Recife furando fila das vagas de PcD, por decisão do prefeito João Campos (PSB), decidiu no dia seis de novembro de 2025 a anulação de toda a operação de busca e apreensão, de responsabilidade do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE), em torno do escândalo das empreiteiras da gestão do PSB na Prefeitura do Recife. Trata-se de Operação Barriga de Aluguel, realizada no dia 14 de agosto de 2025. Confira a matéria do próprio MPPE sobre a operação
De acordo com seis fontes consultadas pelo Blog Manoel Medeiros, inclusive com a apresentação de provas documentais, que não podem ser divulgadas por conta de estarem sob sigilo de Justiça, o juiz Rildo Vieira da Silva teve a redistribuição do caso recebida às 16h do dia seis de novembro de 2025 e às 19h já decidiu pela anulação de toda a busca e apreensão, arquivando o processo. Segundo as informações, seria humanamente impossível o juiz ter conhecimento das milhares de página do processo. Mesmo assim, neste curtíssimo espaço de tempo, ele deu a decisão anulando o processo.
Todos os dados estão sob posse deste jornalista, que cumpre sua missão constitucional de informar.
Em paralelo, já corria na Prefeitura do Recife o pedido administrativo de Lucas Vieira Silva, seu filho, para ingressar como PcD no concurso que realizou em 2022 e já havia sido homologado desde junho de 2023.
Após a anulação, uma nova redistribuição levou o caso para o juiz Rafael Cavalcanti Lemos, que estava ausente, e foi recebido pela juíza Danielle Christine Burichel. Em paralelo, um advogado dos investigados fez petição de mandado de segurança solicitando a devolução do material da busca e apreensão, distribuída ao desembargador Mauro Alencar. O desembargador deu uma decisão parcial, negando a devolução, mas congelando as investigações.
CONTEXTO – O episódio do candidato fura-fila do concurso da Procuradoria do Recife escancara um enredo que envolve suspeitade tráfico de influência numa ousada operação do prefeito do Recife, João Campos (PSB), em parceria com seu procurador-geral, Pedro Pontes, em benefício de um candidato filho de um juiz estadual e de uma procuradora de Contas.
Nas contas de um cidadão comum, tamanha disposição em mudar o resultado de um concurso dois anos após a sua homologação, tirando o direito de um PcD que havia obtido a vaga, precisaria de uma justificativa à altura do risco. Mas o que de fato está por trás desse enredo?
O Blog Manoel Medeiros vem a público destrinchar mais um capítulo dessa história.
A Vara de Crimes contra a Administração Pública da Capital tinha como titular, até outubro de 2025, a juíza Roberta Vasconcelos Franco Rafael Nogueira, transferida para uma vara da Família. Assumiram, desde então, os juízes Rafael Cavalcanti Lemos, Rildo Vieira da Silva (pai do candidato nomeado) e Danielle Christine Silva Melo Burichel. Fontes diversas consultadas pelo Blog confirmam que o inquérito do escândalo das empreiteiras chegou à mesa de Rildo Vieira da Silva um mês após sua promoção. Ele era da Vara de Carpina.

Embora a blindagem diante da gestão do PSB no geral venha funcionando, as investigações nos âmbitos federal e local chegaram a ser relatadas pela imprensa, a exemplo dessa matéria do UOL, que ganhou repercussão nacional em maio de 2025. Leia: MP investiga contrato da gestão João Campos com firma a 2.000 km do Recife
As investigações motivaram a Operação Barriga de Aluguel, no dia 14 de agosto, com buscas e apreensões em empresas e residências em Pernambuco e em Minas Gerais, tratam de suspeitas de corrupção envolvendo mais de R$ 200 milhões de recursos municipais – com injeção de dinheiro federal do SUS – distribuídos a uma rede de empresas vinculadas politicamente a nomes fortes do comando da gestão.

Apesar de a primeira fase da operação ter ocorrido há quatro meses, em agosto, com autorização judicial da juíza Roberta Nogueira, até o momento apenas um release do MPPE foi publicado no dia da operação. Todos os processos seguem sob sigilo de justiça, inclusive a decisão da magistrada pelo deferimento da Operação Barriga de Aluguel, que acendeu sinal de alerta no alto comando da Prefeitura. Desde então, uma verdadeira guerra de ofensivas e contraofensivas envolvendo a Procuradoria-Geral do Município do Recife, atuando por João Campos, foi deflagrada.
Há suspeita de que os recursos foram pagos em duplicidade, financiaram campanhas eleitorais e motivaram enriquecimento ilícito de figurões do entorno do prefeito que desfilam em automóveis milionários e desfrutam de luxos em verdadeiras mansões no Litoral Sul de Pernambuco.
Além do MPPE, vários órgãos de fiscalização têm as informações desde meados de 2024 sobre os supostos desvios milionários: o Blog teve a confirmação de que há inquéritos em tramitação, por exemplo, na Polícia Federal, e uma apuração já avançada no âmbito do Tribunal de Contas da União (TCU). No TCE, os conselheiros relatores da Saúde e da Educação do Recife em 2024, Rodrigo Novaes e Eduardo Porto, abriram auditorias especiais a pedido do Ministério Público de Contas, que confirmou a procedência das denúncias em duas representações aos conselheiros solicitando mais investigações (leia mais abaixo).
Embora existam avanços e disposição de uma parcela dos que fazem os órgãos de fiscalização em fazer as apurações como determina a lei, em prol do interesse público, também não restam obstáculos no sentido da impunidade. É aí que a sociedade civil e o seu controle social precisam atuar.
O ESQUEMA – Na prática, a partir de 2021 – primeiro ano do governo João Campos – a Prefeitura contratou, por meio de seis secretarias, principalmente a de Educação e a de Saúde, uma empreiteira sediada no remoto município de João Pinheiro, Noroeste de Minas Gerais, sem licitação: a Construtora Sinarco. A contratação ocorreu mediante adesões a atas de registro de preços de um consórcio de municípios de Minas Gerais que já apareceu em outras investigações vinculadas ao grupo do empresário de setor de gráficas de Pernambuco Sebastião Figueiroa. A construtora, no entanto, não tem sede ou filial no Nordeste, muito menos em Pernambuco.

Pelo tamanho da operação e a envergadura das contratações, que construíram escolas e postos de saúde do chão, sem qualquer licitação, a exemplo do novo Centro de Saúde Mario Ramos, em Casa Amarela, e da nova sede da escola Severina Lira, na Tamarineira, é difícil acreditar que o prefeito não sabia de nada.
O fato é que toda a operação sob o manto de realização de “manutenções prediais” de mais de 500 equipamentos públicos municipais foi assumida por duas empresas locais, com sede em Paulista e no Recife, que faturaram alto na gestão anterior do PSB no Recife: a Alca Engenharia e a Max Construções. Ambas já mantinham contratos com a Prefeitura do Recife na atual gestão.
Ou seja, os investigadores apuram a duplicidade de pagamentos para obras de manutenção predial de equipamentos como escolas, creches e unidades de saúde. Além do pagamento pelo serviço prestado em si, haveria outro – a partir da mesma obra realizada – auferindo ganhos vultosos para operação. Também há pagamentos de reajustes retroativos questionados pelo Ministério Público de Contas, a exemplo de R$ 3,5 milhões depositados pela gestão João Campos na conta da construtora mineira em abril de 2024 sem previsão contratual.
Mais grave ainda é que toda a rede de saúde, por exemplo, já possuía contratos de manutenção predial com empresas locais (incluindo a Max Construções), no entanto, a gestão João Campos decidiu contratar também a empreiteira mineira, sem licitação. Há vários exemplos de unidades de saúde que teriam sido reformadas ao mesmo tempo pela construtora mineira – sem sede ou filial em Pernambuco – e pelas demais contratadas pela gestão.
Conforme os boletins de medição da Sinarco, pagos pela Prefeitura, era o mesmo engenheiro quem assinava pela empreiteira mineira, assim como em relação à Alca e à Max, de sua propriedade. A empreitada foi turbinada em 2024, ano das eleições municipais, quando as três empresas sob domínio do mesmo dono faturaram R$ 81 milhões, a maior parte desses a partir de contratos com graves indícios de irregularidades.
REPRESENTAÇÃO MPC – O Blog obteve acesso à cópia de representação interna do Ministério Público de Contas do Estado de Pernambuco, de março deste ano, em torno das suspeitas de corrupção do escândalo das empreiteiras da gestão João Campos. Confira com exclusividade aqui.
De acordo com o texto, de 17 páginas, foram avaliadas a “contratação por adesão a atas de registro de preços”, a “possível duplicidade de pagamentos”, os “indícios de execução dos serviços por outras empresas e da ausência de sede ou filial e estrutura da Construtora Sinarco em Pernambuco”, a “utilização de recursos federais do SUS”, os “reajustes contratuais” e os “boletins de medição sem as informações essenciais à liquidação da despesa”.
Conforme o pedido final ao TCE, “as provas reunidas são suficientes para demonstrar a existência de irregularidades dentro da competência desta Corte de Contas, justifica-se a apresentação da presente Representação, sendo essencial a adoção de medidas para a proteção do interesse público. Por essa razão, este Parquet roga pela instauração de procedimento de auditoria pela unidade técnica dessa Corte de Contas, a fim de que todas as questões levantadas durante a instrução sejam analisadas com a devida profundidade que a situação exige”.