Corregedor do CNJ, ministro Mauro Campbell determinou que apuração de possível falta funcional do juiz deve ocorrer porque Rildo Vieira não teria esgotado as acusações em sua defesa inicial
Recife, 19/08/2026, 10h26
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu na última sexta-feira (14) que a Justiça de Pernambuco apure suposta violação disciplinar do juiz Rildo Vieira da Silva, suspeito de arquivar investigação da Operação Barriga de Aluguel, do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE), poucas horas após assumir o processo. A informação exclusiva é da Coluna do Estadão, em matéria assinada por Eduardo Barretto. O caso tem relação com o episódio do fura-fila.

O processo foi aberto no CNJ a partir de reclamação disciplinar apresentada pelo jornalista e economista Manoel Medeiros, titular deste espaço, em 12 de janeiro deste ano. O juiz respondeu aos questionamentos em março e a decisão do corregedor-nacional de Justiça e ministro do Superior Tribunal de Justiça, Mauro Campbell, foi despachada na última sexta-feira (14). Manoel Medeiros representou mais de 800 cidadãos que assinaram um abaixo-assinado pedindo providências ao Conselho.
Segundo Medeiros, que é candidato a deputado estadual na eleição deste ano (Novo), “a decisão é um avanço importante para quem acredita na força da sociedade que combate a impunidade”. “Fizemos o abaixo-assinado, apresentamos argumentos importantes nesse processo do fura-fila e agora o processo anda no sentido de que o Tribunal de Justiça faça a apuração. O episódio do fura-fila é um marco na história aqui de Pernambuco no que se refere a colocar investigação de corrupção embaixo do tapete e o despacho do ministro corregedor é uma vitória importante no sentido de que todos devem se explicar perante a lei”, afirmou.

De acordo com o Estadão, “o Tribunal de Justiça de Pernambuco disse que ainda não foi notificado da decisão e o juiz não respondeu”. Ainda segundo o jornal, “de acordo com o processo levado ao CNJ, o magistrado tinha um conflito de interesses no caso porque seu filho, Lucas Vieira, foi nomeado para o cargo de procurador do Recife cerca de um mês após anular a investigação”.
Na decisão, o corregedor-nacional de Justiça, Mauro Campbell, ressaltou que o juiz não rebateu diversas acusações da representação. “O magistrado absteve-se de refutar a tese de que haveria descumprido expressamente o Código de Ética da Magistratura ao frustrar pretensa transparência e celeridade processual”, escreveu o corregedor, que mandou o caso à Justiça estadual na última semana.

FURA-FILA – Rildo Vieira da Silva era juiz titular da Comarca de Carpina e assumiu uma das vagas da nova Vara Regional de Crimes Contra a Administração Pública, Ordem Tributária, Lavagem de Dinheiro e de Delitos de Organizações Criminosas Colegiada da Capital em 13 de outubro, quando a operação Barriga de Aluguel já tinha acontecido. Sem justificativa aparente, o processo foi redistribuído para ele no dia seis de novembro às 16h e às 19h ele anulou todo o trabalho investigativo do MPPE, contrariando a decisão da magistrada Roberta Nogueira, que deixou a Vara.
Semanas depois, seu filho foi nomeado no concurso de procurador judicial da Prefeitura do Recife na vaga de PCD, dois anos após a homologação do certame e mesmo sem ter se inscrito nas vagas específicas. O episódio ficou conhecido como o caso do fura-fila e teve ampla repercussão nacional, levando a Prefeitura a – uma semana depois – recuar da nomeação, que havia ocorrido na antevéspera do Natal, numa edição extra do Diário Oficial publicada à noite.
Desde então, o inquérito ficou paralisado, tendo sido liberada sua continuidade por decisão de três desembargadores da 2ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco (TJPE) em 28 de janeiro. Dois dias depois, por solicitação de secretárias da Prefeitura do Recife, Gilmar Mendes viu ilegalidades no inquérito e decidiu trancá-lo. Apesar de o MPPE ter recorrido ainda em fevereiro, o pleito sequer foi avaliado até aqui, seis meses depois.