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Natal na Alepe: mesa diretora cria plano de saúde para deputados e escala 4×3 para assessores do comando da Casa, com direito à indenização

Criação do plano de saúde próprio do Poder Legislativo se soma a custo de R$ 76 milhões que Alepe já usa com auxílio saúde pago a comissionados e deputados; parlamentares também já possuem direito a reembolso integral das suas despesas com saúde

A mesa diretora da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe) propôs e aprovou às pressas, no último dia de votação do ano, modificações em benefício próprio sem discussão e transparência incluindo até a votação de emenda secreta. Além da criação de um plano de saúde, que se soma a um gasto de quase uma centena de milhões com auxílio-saúde, o comando da Casa criou uma casta de servidores vinculados aos comandantes do Poder que poderá receber até mais quatro salários por ano pelo “excesso de trabalho”. A decisão é retroativa a janeiro, ou seja, alguns milhões serão dispendidos para o pagamento das licenças deste ano.

Os dois projetos de resolução propostos pelos comandantes da Casa, presidida pelo deputado Álvaro Porto (PSDB), determinaram a criação de um plano de saúde para deputados e servidores da Casa, podendo ser estendido a descendentes de segundo grau (filhos e netos), gerido pelo próprio Legislativo, com o nome de ALEPEMED, e a criação de uma escala 4×3 para determinados funcionários da cúpula do Poder Legislativo, com pagamento de indenização retroativa a janeiro de 2025 destinado a equipes indicadas por Porto e também pelo primeiro-secretário, deputado Francismar Pontes (PSB).

Fim de ano da Alepe marcado por concessão de benefícios milionários para próprios deputados e assessores votados em regime vapt-vupt- Foto: Roberta Guimarães/Alepe

Diferente de vários projetos de lei, incluindo votações em regime de urgência enviadas pelo Poder Executivo que duraram mais de 180 dias para serem apreciados, as votação que criaram o plano de saúde e o regime 4×3 para a cúpula da Casa ocorreram em tramitação recorde. A matéria do plano de saúde foi assinada em 15 de dezembro, já estava na pauta da ordem do dia 16 e foi votada e aprovada naquela mesma data. No caso da a licença compensatória por acúmulo de acervo administrativo, nome formal para o bônus, a criação do mecanismo ocorreu no mesmo dia da votação e sua publicação só ocorreu um dia depois, com a matéria já votada.

EMENDA SECRETA – O projeto de resolução, que cria a escala de trabalho 4×3 para assessores ligados à mesa diretora, sobretudo aqueles indicados pelo presidente e primeiro-secretário, contém um agravante: a emenda aditiva que incluiu o trem de alegria, incluindo pagamentos de indenizações acima de R$ 100 mil para determinados servidores, inclusive comissionados, foi votada sem necessariamente o conhecimento do conjunto de deputados da Casa. Isso porque ela nunca foi publicada anteriormente à votação: de autoria da Comissão de Justiça da Alepe, comandada por aliados de Álvaro Porto, foi incluída secretamente no mesmo dia da apreciação (16 de dezembro) em plenário e apenas formalizada no Diário Oficial do Legislativo no dia seguinte, quando já estava aprovada.

Emenda aditiva que criou casta especial de assessores com direito a 4 salários a mais por ano só foi publicada em Diário Oficial após a votação

O próprio registro de trâmite da Casa indica que sua publicação aconteceu em 17 de dezembro de 2025, quando a votação já havia acontecido. Trata-se de um exemplo taxativo de violação aos princípios básicos da publicidade e do regramento da Casa, o que tornaria inócua a votação.

Emenda que criou a casta de servidores com direito a 17 salários por ano só foi publicada após votação

A emenda causou protestos do Sindicato dos Servidores no Poder Legislativo de Pernambuco (Sindilegis), que acusou a mesa diretora de “pela primeira vez em muitos anos” não ter recebido a Diretoria Executiva do sindicato para discussão da matéria, que cria uma casta de servidores – da Procuradoria e da Consultoria legislativas – diferenciada das demais, somados a até dez servidores indicados por Álvaro Porto e Francismar Pontes.

“A emenda prevê a concessão de licença compensatória, na proporção de três dias úteis de trabalho para um dia de licença, para gozo oportuno ou conversão em pecúnia, destinada apenas a duas superintendências da Casa, estendida a até cinco servidores da Presidência e da Primeira Secretaria, ou de órgãos diretamente subordinados a elas”, explicou o Sindilegis em postagem no Instagram.

ALEPEMED – A criação do plano de saúde da Alepe funcionará na prática como uma nova empresa (pessoa jurídica) financiada pelos cofres públicos estaduais. Vinculada à Superintendência de Saúde e Medicina Ocupacional – SSMO, que é gerida sob o comando do grupo de Álvaro Porto, a nova empresa terá orçamento próprio, composto pelas contribuições dos usuários e também por aportes da própria Alepe, que conta com um orçamento de R$ 1 bilhão para 2026.

Criação do Plano de Saúde foi publicada, votada e aprovada no mesmo dia

O regulamento do ALEPEMED determina que são beneficiários titulares os deputados com mandato, os servidores efetivos, ativos e inativos, os pensionistas temporários ou vitalícios. Como dependentes, são incluídos o cônjuge. De acordo com o Art. 32, são beneficiários agregados os descendentes até segundo grau dos titulares. O texto deixa em aberto outras adesões: “o conselho gestor poderá deliberar, quando da implementação do ALEPEMED, em caráter excepcional, pela inclusão de outros beneficiários, conforme definido em Ato próprio”.

O custo se soma um orçamento já executado pela Casa de Joaquim Nabuco de R$ 76 milhões em 2025 para pagamento de auxílio-saúde aos servidores da Casa. Também foi aprovada a majoração dessa alíquota, de 10% para 15% a partir de 2026, com efeitos retroativos a janeiro de 2025.

Os deputados estaduais já têm o direito de receber integralmente as despesas particulares com saúde, totalizando um gasto em 2025 de aproximadamente R$ 1 milhão.

 

 

 

 

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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