“Negócio da China”: edição de 2026 segue o caminho da anterior, marcada por indícios de fraude na prestação de contas e benefícios a produtoras de amigos do prefeito
Quando o morador do Recife tomar o primeiro gole de cerveja nas comemorações da Virada Recife 2026, na praia do Pina, que começa a partir do próximo sábado (27), lembre-se: alguém embolsou muito dinheiro pela exclusividade da circulação da marca Itaipava na festa pública, realizada na areia da praia – pública! Sim, existe uma área VIP paga, mas a festa é aberta a todos e a concessão da área pública é feita pelo poder público através da Prefeitura, que tem os poderes, direitos e deveres sobre o domínio… público.
Para a edição que se prepara para sua estreia, as redes sociais do evento já divulgaram que os patrocinadores são Itaipava e Esportes da Sorte – esses dois primeiros com destaques de “patrocinadores master” – além de Caixa Econômica Federal, Bradesco, 99, BYD Via Sul e Old Parr. Até o momento, não há qualquer registro oficial apontando de que forma tais patrocínios foram obtidos, se houve disputa pública e, principalmente, os valores dos recursos injetados pela iniciativa privada na empreitada pública.
Se de um lado existem empresas no papel legítimo de divulgar suas marcas, do outro falta transparência da organização do evento (concessionária) e do poder concedente, que é a Prefeitura.

Trata-se do mesmo modus operandi das duas edições anteriores, com um agravante a respeito da edição passada: sem qualquer fiscalização, a Prefeitura do Recife terminou não registrando o ingresso de qualquer centavo do patrocínio master da cervejaria ou casa de bets (Bet.Bet). No caso da Itaipava, a cota inclui o cobiçado direito de exclusividade de comercialização daquela marca na área pública. Mais grave: tirou do ar a prestação de contas imediatamente após os primeiros questionamentos, tornando-a sigilosa.

Em outras festas desse porte, o patrocínio da cervejaria chega a render mais de R$ 2 milhões aos cofres de capitais com porte grandioso como a de Pernambuco. Estranhamente, no Recife, não se sabe onde foi parar esse dinheiro.
Embora não tenha vencido a licitação, também como nos anos anteriores, a produtora BG Promoções Ltda. volta a tomar à frente de boa parte da organização do evento, incluindo a venda da chamada “Área VIP” e algumas tratativas relativas aos patrocínios.
O agravante é que a produtora, conhecida no show business pela realização de grandes e bem sucedidos eventos, pertence a um amigo do prefeito João Campos (PSB), do presidente da Câmara Municipal, Romerinho Jatobá (PSB), e do deputado federal Felipe Carreras (PSB). Também tem ligação com o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho, patrocinador político da indicação do secretário de Turismo e Lazer do Recife, Thiago Angelus. Um secretário-executivo da gestão Campos é irmão do dono da produtora. E mais: o marketing da Itaipava em Pernambuco tem relação com o núcleo empresarial que comanda a BG Promoções. Um jogo que se fecha sempre em torno dos mesmos

Conforme revelado pelo Blog Manoel Medeiros, o evento do ano passado registrou indícios de fraudes na prestação de contas, chegando a possivelmente maquiar dados para justificar um “prejuízo de R$ 140 mil”. É que o resultado dispensava a empresa privada a pagar uma possível parcela extra do lucro aos cofres do Recife. Ficou tudo por isso mesmo. Como se vê, é possível que o dinheiro tenha entrado, mas não tenha sido registrado.

O formato da festa, promovido – a priori – sem a participação do recurso público, é uma excelente opção. O problema é a falta de transparência e os indícios de que, sim, a Prefeitura paga parte da estrutura para ajudar os amigos, o que desvirtua por completo o formato, configurando uso de recursos públicos para benefícios privados. Por fim, ainda se soma a cada vez mais concreta hipótese de que os recursos dos patrocínios, como dito, um bem público (pois a praia é pública), terminam no bolso de alguém, sem registros.
Como se vê, um negócio da China.