Modelo do Réveillon adotado pela Prefeitura do Recife desde 2023 mistura público e privado e beneficia sem licitação produtoras próximas ao PSB e à família Coelho
O modelo de concessão da faixa de areia da praia do Pina no Réveillon do Recife, que chega à sua terceira edição no final desse mês, tem sido marcado por irregularidades como indícios de fraudes milionárias na prestação de contas, burla à licitação, contratação de empresas que não participaram da disputa e desvios no direcionamento de patrocínios públicos.

De acordo com o fechamento das contas do evento do ano passado apresentados pela iniciativa privada à Prefeitura do Recife, e acessado pela reportagem, os quatro dias do evento 2024/2025 resultaram num suposto prejuízo para a empresa realizadora de R$ 140,2 mil.
Indicando claramente que os números não batem com a realidade, a Talentos Promecc, vencedora da licitação, insiste em continuar à frente da empreitada e será a responsável pelo evento deste ano, que caminha para manter o mesmo modus operandi.

Outra irregularidade revelada na consulta à prestação de contas é a participação de outras produtoras como reais promotoras da festa. Embora não tenha participado de qualquer licitação, a BG Promoções e Eventos Ltda., por exemplo, é a grande organizadora do evento, inclusive responsável por negociar parte dos patrocínios e fazer pagamentos ao ECAD. A empresa é uma das mais conhecidas do mercado nordestino.
A BG pertence ao produtor Bruno Rêgo, com ligações profissionais e pessoais com o deputado federal Felipe Carreras (PSB), com o prefeito João Campos (PSB) e com o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União), responsável pela indicação do secretário de Turismo e Lazer do Recife, Thiago Ângelo. Também foram subcontratadas no dia 16 de dezembro de 2024 as empresas TQR Eventos, Mídia e Publicidade EPP e a GS Produções e Promoções de Eventos Ltda., ligadas ao mesmo grupo. Ocorre que a BG já vendia os ingressos do camarote desde novembro, pelo menos.
Esse ano, a BG Promoções já está desde o final de outubro vendendo os ingressos do camarote para a Virada 2025/2026, embora novamente não tenha participado de qualquer licitação ou disputa pública que a chancelasse nesse papel.

Diferente dos dados maquiados da prestação de contas apresentada pela empresa contratada à Secretaria de Turismo e Lazer, o evento, que contou inclusive com show de Roberto Carlos no dia 26 de dezembro, reconhecidamente um dos mais rentáveis do show business brasileiro, na realidade auferiu lucros que ultrapassou a esfera do milhão.
A prática de esconder dados e supostamente falsificar a prestação impede a necessidade de dividir com o poder público municipal parte dos lucros, conforme a regra contratual, que previa a modesta alíquota de 9% dos resultados positivos destinados aos cofres municipais. Quanto maior o lucro, melhor para a Prefeitura e vice-versa. A ausência de maior controle sobre a prestação, incluindo da parte dos órgãos de controle, poderá produzir novos prejuízos aos recifenses na edição deste ano, que já está sendo vendida pela BG Promoções.

PATROCÍNIOS – Para se ter uma ideia, a cervejaria Itaipava, principal patrocinadora do evento e detentora do direito de venda exclusiva de bebidas na área pública do evento, não aparece como pagante de cota de patrocínio (em dinheiro) na prestação de contas apresentada à Prefeitura. Sua contribuição seria apenas R$ 287,9 mil em bebidas para fornecimento no camarote. Em eventos do mesmo porte do Réveillon do Recife, como Salvador, Fortaleza, e eventos de grande dimensão no interior, o patrocínio de cervejarias gira em torno de R$ 1,5 milhão a R$ 3,0 milhões.

A divulgação ostensiva da marca em todos os elementos de divulgação do evento, nas redes sociais e no próprio palco da festa, deixa claro que a divulgação da cervejaria valeu a pena. O marketing da Itaipava é gerido em Pernambuco pelo mesmo grupo empresarial da BG Promoções, o que pode ter facilitado a transação sem passar pela prestação de contas oficial.
Outro patrocínio que não apareceu registrado na aba de receitas da prestação de contas do evento do ano passado é o da casa de bets “Bet.Bet”. Como mostram os vídeos, as fotos e o material de divulgação prévio do evento, a empresa teve sua marca ostensivamente associada à Virada Recife 2024/2025, mas não aparece com qualquer pagamento registrado pela exposição. De acordo com relatório final da prestação de contas, “a empresa não teria cumprido o acordo para o patrocínio”: “no caso da Bet, a empresa informou que a mesma terminou não cumprindo com o acordado para o patrocínio, o que ocasionou a retirada do patrocinador da planilha de prestação de contas”, registra o relatório da Talentos Promecc.
De acordo com as regras contratuais, a empresa vencedora da disputa para comandar o evento público do Réveillon tem a obrigação de oferecer ao mercado, de forma transparente e equilibrada, a oportunidade de as empresas, conforme seu nicho de mercado (cervejaria, bets, etc.), apresentarem propostas de patrocínio conforme o item 8.5.2.54 do termo de referência que embasa a contratação. Não há informação que aponte para a realização dessa disputa, sendo os patrocínios decididos de forma unilateral e sem transparência.

A análise da prestação de contas, ainda no campo das receitas, também registra o ingresso de recursos das senhas para a área VIP do evento com indícios de estarem “a menor”. As receitas do dia que teve Roberto Carlos como atração, por exemplo, aparecem menores que a dos demais dias, o que sugere uma subnotificação. Por outra parte, o valor médio por ingressos pagos em dinheiro para a noite da Virada registra média de R$ 187,00 enquanto na prática foram comercializados a partir de R$ 400,00.
DESPESAS ZERADAS – Por parte das despesas, a prestação de contas apresentada pela Talentos Promecc à Secretaria de Turismo e Lazer lançou como itens “zerados”, ou seja, sem custo, boa parte da infraestrutura do evento, como montagem do palco, camarotes, áreas de alimentação e disponibilização de banheiros químicos, sugerindo financiamento público para evento entregue à iniciativa privada. Uma das hipóteses é que teria sido a própria Prefeitura a responsável pela montagem. Outro gasto público realizado com recursos do tesouro municipal diz respeito ao show pirotécnico da Orla, ao custo de R$ 3,0 milhões, que tem como principal ponto de ativação justamente o Pina, onde a iniciativa privada tem a responsabilidade de promover o evento.
AMIZADE – Desde que a Secretaria de Turismo e Lazer do Recife passou às mãos do grupo dos Coelhos – primeiro com o deputado estadual Antônio Coelho como secretário e agora Thiago Ângelo -, o modelo do Réveillon do Recife passou a ser a concessão da faixa de areia à iniciativa privada. Sem participar de licitação, a Prefeitura colocou a BG Promoções no centro do evento. A empresa – criada em 2007 – cresceu durante o início da gestão Eduardo Campos em frente à gestão estadual e faz parcerias com a Festa Cheia, que teve como um dos sócios Felipe Carreras. A produtora também é a responsável, há anos, pelo São João de Petrolina, município administrado há 13 anos pela família Coelho.

Nas redes sociais, a ligação entre o produtor e o grupo do PSB e da família Coelho é evidente. Na eleição de 2024, por exemplo, o dono da BG Promoções aparece pedindo votos para João Campos, sobre quem escreveu “gratidão é dívida que não prescreve”. Também aparecem postagens da atuação do produtor na campanha de Miguel Coelho ao governo estadual em 2022, além de exaltações às candidaturas de Antonio Coelho à Assembleia Legislativa e Felipe Carreras à Câmara Federal.