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Prestação de contas da Virada Recife 2024/2025 tem indícios de fraude milionária e benefícios a produtoras ligadas ao prefeito

Modelo do Réveillon adotado pela Prefeitura do Recife desde 2023 mistura público e privado e beneficia sem licitação produtoras próximas ao PSB e à família Coelho

O modelo de concessão da faixa de areia da praia do Pina no Réveillon do Recife, que chega à sua terceira edição no final desse mês, tem sido marcado por irregularidades como indícios de fraudes milionárias na prestação de contas, burla à licitação, contratação de empresas que não participaram da disputa e desvios no direcionamento de patrocínios públicos.

Evento teve como patrocinadores master a Itaipava e a Bet.Bet, como se vê no palco – Foto: Arthur Mota/Folha de PE

De acordo com o fechamento das contas do evento do ano passado apresentados pela iniciativa privada à Prefeitura do Recife, e acessado pela reportagem, os quatro dias do evento 2024/2025 resultaram num suposto prejuízo para a empresa realizadora de R$ 140,2 mil.

Indicando claramente que os números não batem com a realidade, a Talentos Promecc, vencedora da licitação, insiste em continuar à frente da empreitada e será a responsável pelo evento deste ano, que caminha para manter o mesmo modus operandi.

Relatório final da prestação de contas do evento aponta prejuízo de R$ 140,2 mil e têm indícios de fraude

Outra irregularidade revelada na consulta à prestação de contas é a participação de outras produtoras como reais promotoras da festa. Embora não tenha participado de qualquer licitação, a BG Promoções e Eventos Ltda., por exemplo, é a grande organizadora do evento, inclusive responsável por negociar parte dos patrocínios e fazer pagamentos ao ECAD. A empresa é uma das mais conhecidas do mercado nordestino.

A BG pertence ao produtor Bruno Rêgo, com ligações profissionais e pessoais com o deputado federal Felipe Carreras (PSB), com o prefeito João Campos (PSB) e com o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União), responsável pela indicação do secretário de Turismo e Lazer do Recife, Thiago Ângelo. Também foram subcontratadas no dia 16 de dezembro de 2024 as empresas TQR Eventos, Mídia e Publicidade EPP e a GS Produções e Promoções de Eventos Ltda., ligadas ao mesmo grupo. Ocorre que a BG já vendia os ingressos do camarote desde novembro, pelo menos.

Esse ano, a BG Promoções já está desde o final de outubro vendendo os ingressos do camarote para a Virada 2025/2026, embora novamente não tenha participado de qualquer licitação ou disputa pública que a chancelasse nesse papel.

Edição de 2025/2026 está novamente sendo produzida e comercializada pela BG Promoções

Diferente dos dados maquiados da prestação de contas apresentada pela empresa contratada à Secretaria de Turismo e Lazer, o evento, que contou inclusive com show de Roberto Carlos no dia 26 de dezembro, reconhecidamente um dos mais rentáveis do show business brasileiro, na realidade auferiu lucros que ultrapassou a esfera do milhão.

A prática de esconder dados e supostamente falsificar a prestação impede a necessidade de dividir com o poder público municipal parte dos lucros, conforme a regra contratual, que previa a modesta alíquota de 9% dos resultados positivos destinados aos cofres municipais. Quanto maior o lucro, melhor para a Prefeitura e vice-versa. A ausência de maior controle sobre a prestação, incluindo da parte dos órgãos de controle, poderá produzir novos prejuízos aos recifenses na edição deste ano, que já está sendo vendida pela BG Promoções.

Lista de receitas do patrocínio não aponta valores em dinheiro da Itaipava e nenhum registro da Bet.Bet

PATROCÍNIOS – Para se ter uma ideia, a cervejaria Itaipava, principal patrocinadora do evento e detentora do direito de venda exclusiva de bebidas na área pública do evento, não aparece como pagante de cota de patrocínio (em dinheiro) na prestação de contas apresentada à Prefeitura. Sua contribuição seria apenas R$ 287,9 mil em bebidas para fornecimento no camarote. Em eventos do mesmo porte do Réveillon do Recife, como Salvador, Fortaleza, e eventos de grande dimensão no interior, o patrocínio de cervejarias gira em torno de  R$ 1,5 milhão a R$ 3,0 milhões.

Marca de jogos de aposta online foram exibidas, mas não há registro de ingresso de recursos do patrocínio na prestação de contas

A divulgação ostensiva da marca em todos os elementos de divulgação do evento, nas redes sociais e no próprio palco da festa, deixa claro que a divulgação da cervejaria valeu a pena. O marketing da Itaipava é gerido em Pernambuco pelo mesmo grupo empresarial da BG Promoções, o que pode ter facilitado a transação sem passar pela prestação de contas oficial.

Outro patrocínio que não apareceu registrado na aba de receitas da prestação de contas do evento do ano passado é o da casa de bets “Bet.Bet”.  Como mostram os vídeos, as fotos e o material de divulgação prévio do evento, a empresa teve sua marca ostensivamente associada à Virada Recife 2024/2025, mas não aparece com qualquer pagamento registrado pela exposição. De acordo com relatório final da prestação de contas, “a empresa não teria cumprido o acordo para o patrocínio”: “no caso da Bet, a empresa informou que a mesma terminou não cumprindo com o acordado para o patrocínio, o que ocasionou a retirada do patrocinador da planilha de prestação de contas”, registra o relatório da Talentos Promecc.

De acordo com as regras contratuais, a empresa vencedora da disputa para comandar o evento público do Réveillon tem a obrigação de oferecer ao mercado, de forma transparente e equilibrada, a oportunidade de as empresas, conforme seu nicho de mercado (cervejaria, bets, etc.), apresentarem propostas de patrocínio conforme o item 8.5.2.54 do termo de referência que embasa a contratação. Não há informação que aponte para a realização dessa disputa, sendo os patrocínios decididos de forma unilateral e sem transparência.

Patrocínios do evento devem ser decididos de forma transparente e pública

A análise da prestação de contas, ainda no campo das receitas, também registra o ingresso de recursos das senhas para a área VIP do evento com indícios de estarem “a menor”. As receitas do dia que teve Roberto Carlos como atração, por exemplo, aparecem menores que a dos demais dias, o que sugere uma subnotificação. Por outra parte, o valor médio por ingressos pagos em dinheiro para a noite da Virada registra média de R$ 187,00 enquanto na prática foram comercializados a partir de R$ 400,00.

DESPESAS ZERADAS – Por parte das despesas, a prestação de contas apresentada pela Talentos Promecc à Secretaria de Turismo e Lazer lançou como itens “zerados”, ou seja, sem custo, boa parte da infraestrutura do evento, como montagem do palco, camarotes, áreas de alimentação e disponibilização de banheiros químicos, sugerindo financiamento público para evento entregue à iniciativa privada. Uma das hipóteses é que teria sido a própria Prefeitura a responsável pela montagem. Outro gasto público realizado com recursos do tesouro municipal diz respeito ao show pirotécnico da Orla, ao custo de R$ 3,0 milhões, que tem como principal ponto de ativação justamente o Pina, onde a iniciativa privada tem a responsabilidade de promover o evento.

AMIZADE – Desde que a Secretaria de Turismo e Lazer do Recife passou às mãos do grupo dos Coelhos – primeiro com o deputado estadual Antônio Coelho como secretário e agora Thiago Ângelo -, o modelo do Réveillon do Recife passou a ser a concessão da faixa de areia à iniciativa privada. Sem participar de licitação, a Prefeitura colocou a BG Promoções no centro do evento. A empresa – criada em 2007 – cresceu durante o início da gestão Eduardo Campos em frente à gestão estadual e faz parcerias com a Festa Cheia, que teve como um dos sócios Felipe Carreras. A produtora também é a responsável, há anos, pelo São João de Petrolina, município administrado há 13 anos pela família Coelho.

Dirigente do União Brasil, responsável politicamente pela Pasta de Turismo e Lazer no Recife, Miguel Coelho (irmão do ex-secretário de Turismo e Lazer do Recife) é amigo do dono da BG

Nas redes sociais, a ligação entre o produtor e o grupo do PSB e da família Coelho é evidente. Na eleição de 2024, por exemplo, o dono da BG Promoções aparece pedindo votos para João Campos, sobre quem escreveu “gratidão é dívida que não prescreve”. Também aparecem postagens da atuação do produtor na campanha de Miguel Coelho ao governo estadual em 2022, além de exaltações às candidaturas de Antonio Coelho à Assembleia Legislativa e Felipe Carreras à Câmara Federal.

 

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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