EDITORIAL
Um convidado de honra, ainda que sem a toga que o faz quase flutuar nos corredores de Brasília, deu o tom do casamento de João Campos e Tabata Amaral, sábado, na Praia dos Carneiros. A bênção de Alexandre de Moraes e sua esposa – aquela que teria contrato milionário com o Banco Master – ao novo casal na singela Capela de São Benedito representa muito mais que uma indevida mistura entre quem julga e quem é julgado, fato que por si só já deveria causar espanto num País em condições normais de temperatura e pressão.
A representação do convite e da presença de um dos mais comentados juízes da Suprema Corte – diga-se de passagem, a instâncias de poder do País que enfrenta a maior crise de desconfiança perante a população – vai muito além. A presença diz, na verdade, muito mesmo é dos Campos & Amaral. Escondidos sob a maquiagem do progressismo, da justiça social e da defesa intransigente da democracia, o novo casal faz de tudo para se subordinar ao sistema no intento de se manter acima dele. Acima da lei.
Embora não conheça as práticas concretas da deputada Tabata em relação ao combate à corrupção – ela nunca foi do Executivo e tem, ao menos nas palavras, um discurso sempre na ponta da língua sobre o assunto – a verdade é que seu noivo patrocina no Recife uma gestão marcada de cabo a rabo por suspeitas de má gestão e corrupção. Digo (pedindo licença para usar o meu direito de opinar) que parece algo mesmo sistemático e planejado para irrigar as fontes de voto e a perpetuação no poder. João diz que “não tolera corrupção”, mas na prática me parece mesmo não tolerar é a investigação. É daqueles que se acham acima da média, filho ungido ao Poder, donatário das terras da capitania.
Nas últimas semanas, o esforço dele para blindar sua gestão de investigações e inquéritos é digno de registro a ser guardado para a história. Só como exemplo, depois de ter ousado mudar o resultado de um concurso para procurador, beneficiando o filho de um juiz que havia anulado a Operação Barriga de Aluguel, do MPPE, contra a Prefeitura, João articulou junto a Gilmar Mendes – no velho STF de sempre – um novo revés para a investigação, que foi trancada por decisão monocrática do decano da Corte. Agora, assessores articulam uma blitzkrieg judicial para calar quem os questiona e denuncia.
Entre discurso e prática, muitos dos que vivem enfurnados nas pontes aéreas da vida, de Brasília para São Paulo, de São Paulo para Brasília, observando o mundo da janela do avião ou do board de ações na B3, admiram o filho de Eduardo Campos. Chegam a apontá-lo como futuro presidente. Nesse sentido, caso estejam procurando um personagem velho travestido de novo, aquele que prefere os acertos de gabinete ao enfrentamento da realidade da rua, sempre disposto à manutenção do status quo do velho sistema, acertaram em cheio. E aí, amigos, vida longa aos Gilmares, Alexandres e tais!