Enquanto dois vereadores pisam nos dois barcos e expõem dúvidas sobre de que lado estão, as duas vereadoras do PT têm decisão pressionada por adesão de Jô Cavalcanti (PSOL), primeira vereadora de esquerda explicitamente favorável às investigações
O avanço na coleta das assinaturas para a CPI do Fura Fila na Câmara do Recife – o requerimento já tem 12 assinaturas faltando apenas uma para obrigar a instauração do colegiado – joga um canhão de luz sobre os demais representantes municipais, especificamente quatro deles, tanto pela relação partidária quanto pela coerência perante seus posicionamentos políticos. Enquanto Gilberto Alves (PRD) e Júnior Bocão (PSD) compõem partidariamente a base de oposição, as vereadoras Liana Cirne (PT) e Kari Santos (PT) têm atuação ativa junto à opinião pública, o que aumenta a pressão sobre elas a partir da assinatura da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), também da esquerda.
O requerimento é de autoria do vereador Thiago Medina (PL) e teve imediatamente a adesão de mais sete vereadores, como Eduardo Moura (Novo), Gilson Filho (PL) e Felipe Alecrim (Novo).
De acordo com matéria publicada com exclusividade pelo site “Bastidor.pe” nessa terça-feira (10), nos bastidores já seriam “favas contadas” as assinaturas de 15 vereadores nos próximos dias, o que inevitavelmente levaria à abertura da CPI.

Por ironia, Júnior Bocão foi um dos dois únicos vereadores eleitos pelo partido presidido pela governadora Raquel Lyra (PSD) e participou da coligação que tinha como candidato o atual secretário de Meio Ambiente do Estado, Daniel Coelho (PSD), à Prefeitura, com quem tem ligação. Seu partido, portanto, é um dos principais articuladores da oposição à Prefeitura do Recife, assim como o PSB de João Campos articula contra a governadora na Assembleia Legislativa.
Mesmo pertencendo ao partido da governadora, Bocão ainda não assinou a CPI. Ele mantém postura de governista, inclusive tendo participado de um evento ao lado do prefeito João Campos (PSB), registrado em fotos com abraços e aproximações, um dia após a vitória do prefeito no processo de reeleição há um ano e meio.

No caso de Gilberto Alves, o vereador é filiado ao partido do vice-líder do governo na Assembleia Legislativa Joãozinho Tenório, com quem teria ligação política. Seu grupo tem participação no governo estadual, tendo seu irmão gêmeo, João Batista, ocupado por mais de um ano a presidência da Junta Comercial do Estado de Pernambuco (Jucepe), tendo sido promovido à secretário executivo da Casa Civil da administração estadual esta semana. Gilberto e Bocão foram contra a instauração do processo de impeachment e ainda não assinaram o requerimento pela CPI.

As vereadoras do Partido dos Trabalhadores, por sua vez, estão entre as figuras políticas com maior repercussão nas redes sociais entre os 37 vereadores da Câmara do Recife e são pré-candidatas à Câmara Federal. O fato de a única representante do PSOL na Casa ter assinado o requerimento da CPI leva ao questionamento na esquerda do motivo pelo qual Liana Cirne e Kari Santos também não assinarem. Liana Cirne, inclusive, é professora de Direito e defensora da causa das pessoas com deficiência (PcD), fatos que justificariam por si só a sua participação no pedido de abertura de CPI.
A provável Comissão Parlamentar de Inquérito acende todos os sinais de alerta na estrutura de poder do PSB, já que por trás do escândalo do fura fila estaria a intenção de anular investigações de corrupção, via esquema de empreiteiras, na Prefeitura do Recife. As investigações – que inclusive já levaram às ruas a Operação Barriga de Aluguel – foram anuladas pelo juiz Rildo Vieira da Silva, voltaram à tona após decisão de três desembargadores, e depois foram novamente trancadas, a pedido do PSB e de três secretárias da gestão, por decisão monocrática do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.