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MPPE é acionado para apurar se preço de imóvel comprado por vice-prefeito e secretários de João Campos em Chã Grande bate com a realidade; pagamento teria sido à vista

Compra realizada pela empresa que também era do vice-prefeito do Recife foi efetuado por R$ 260 mil; apuração do MPPE poderá confirmar se valor está de acordo com a realidade do bem patrimonial ou não

O Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE) foi acionado, na manhã desta quinta-feira (12), para apurar se o valor registrado pela aquisição do terreno do Sítio do Lampião, em Chã Grande, Zona da Mata, pela empresa de cinco secretários da Prefeitura do Recife (que à época também pertencia ao vice-prefeito da cidade, Victor Marques, do PCdoB), em fevereiro de 2024, é compatível com o preço de mercado. A petição também solicita investigação sobre a origem do valor pago, que segundo documento público foi à vista.

A petição foi anexada à Notícia de Fato registrada no órgão de fiscalização em 14 de janeiro deste ano pedindo averiguação da legalidade da empresa Sítio Pedra da Onça Ltda., anteriormente denominada Agropecuária Pedra da Onça Ltda. O valor do negócio foi de R$ 260 mil, apontando que cada hectare adquirido (de um total de 10,7) foi oficialmente vendido por R$ 24 mil. O autor das denúncias ao MPPE é o jornalista e economista Manoel Medeiros.

 

Certidão do imóvel aponta que transação de R$ 260 mil em espécie aconteceu em fevereiro de 2024

 

As revelações sobre a existência do empreendimento registrado num cowork no Poço da Panela, Recife, vieram à tona com exclusividade a partir de reportagem deste Blog. Vídeos e matérias a respeito da pauta estão sendo contestados pelos secretários da Prefeitura na Justiça de Pernambuco por meio de ações nos âmbitos civil e criminal. Eles buscam a exclusão de todo o material, pagamento de indenização de R$ 75 mil, retratação e censura prévia a partir da abordagem levantada, além da imputação de crime ao autor deste Blog.

A juíza da Seção A da 7a. Vara Cível, Iasmina Alves, concedeu na última terça-feira (10) uma cautelar parcial. Nesse texto, todas as determinações judiciais estão sendo estritamente consideradas (processo 0010381-25.2026.8.17.2000).

De acordo com registros na internet, o valor do hectare na região rural de Chã Grande teria variação entre R$ 55 mil e R$ 200 mil, dependendo das benfeitorias do imóvel. O Blog Manoel Medeiros esteve no terreno adquirido pela empresa dos secretários de João Campos e observou que aparentemente há pouquíssimas benfeitorias no lugar. Por outro lado, por estar situado num dos pontos mais altos de Chã Grande (648 metros), vista privilegiada, clima ameno, com diversidade natural, proximidade de quedas d’água e outros atrativos, haveria a possibilidade de maior valorização. Em sigilo, fontes afirmam que o valor do hectare na localidade seria de R$ 80 mil a R$ 100 mil, fato que requer atuação dos órgãos de fiscalização competentes para confirmar ou não.

Região do Sítio tem vista privilegiada, clima ameno e muitos recursos naturais

Conforme registro da imprensa local, que denomina o terreno como “sítio do poder” (leia aqui), “tradicionalmente conhecido como um destino turístico com bicas e banhos naturais, o local foi fechado ao público após a construção de uma via turística nas proximidades. Agora, descobriu-se que o nome do antigo atrativo batiza uma empresa privada: a Sítio Pedra da Onça. Ltda, cujos sócios são ninguém menos que os braços direitos do gestor recifense”. O texto também questiona: “o que acontece quando o lazer público de uma cidade do interior se transforma no ativo imobiliário privado da cúpula política da capital?”.

De acordo com outro blog da região, denominado Política no Forno, o prefeito do Recife foi flagrado, na companhia de dois amigos e seguranças, galopando na região da Rota Ecoturística de Chã Grande em maio de 2024, meses após o terreno ter sido adquirido pela empresa. As fotos do flagra, que não caracterizam inteiramente os dois acompanhantes do gestor, sugerem que seriam Luciano Temporal Carneiro (na época secretário executivo de Infraestrutura de Saúde do Recife) e Victor Marques (atual vice-prefeito e então chefe de gabinete de João Campos na Prefeitura).

Passeio do prefeito João Campos acompanhado de Luciano Temporal Carneiro à região onde está um imóvel do Sítio Pedra da Onça Ltda.. Foto: Ismael Alves

Considerando a média dos valores apontados como praticados na região (R$ 90 mil), o imóvel pode valer R$ 970,5 mil. No caso do valor mais baixo registrado em pesquisa amostral (R$ 55 mil), o terreno comprado pelo Sítio Pedra da Onça Ltda. teria valor de mercado de R$ 588,5 mil. Conforme cópia da certidão narrativa imobiliária, o valor pago pela empresa dos secretários, à época também pertencente ao vice-prefeito da capital pernambucana, foi de R$ 260 mil.

Fundada em janeiro de 2024, quando cinco dos seis sócios fundadores já ocupavam cargos estratégicos na Prefeitura, a empresa pertence a Gustavo Monteiro (secretário de Articulação Política e Social), Antônio Mário Limeira Filho (chefe da Assessoria Especial do Prefeito), Daniel Saboya (presidente da Emlurb), Luciano Temporal (atual secretário executivo de Ordem Pública e ex-secretário executivo de Infraestrutura da Saúde) e Bruno Delgado de Souza, que é o sócio-administrador e foi nomeado pelo prefeito como secretário executivo de Transformação Digital, mas ainda não teria tomado posse. O vice-prefeito do Recife Victor Marques (PCdoB), que na época era chefe de gabinete do comandante municipal, era sócio e saiu da sociedade em junho de 2024, semanas antes de ser oficializado na chapa.

Outro pedido de investigação apresentado ao Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE) diz respeito à origem dos recursos, já que – por ocuparem cargos importantes na máquina pública municipal, inclusive sendo ordenadores de despesa – seria necessário averiguar de onde se originou o pagamento de R$ 260 mil, segundo o próprio documento cartorial, realizado à vista. Apenas investigação específica de órgãos de controle tem o condão de avançar a respeito disso.

A peça inicial, de janeiro, também assinada por Medeiros, pede que o MPPE observe a legalidade da atuação empresarial, já que o sócio-administrador da empresa, Bruno Delgado de Souza, havia sido nomeado pelo prefeito para o cargo de secretário executivo de Transformação Digital no final de dezembro de 2025. Pelas regras do Estatuto do Servidor, nem efetivos nem comissionados podem exercer atividade gerencial ou administrativa. Embora não tenha se manifestado ao Blog, petição judicial afirma que ele não tomou posse. A portaria de nomeação, no entanto, segue válida.

Diário Oficial do Recife trouxe em 16 de dezembro de 2025 a nomeação do sócio-administrador do sítio

 

 

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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