Prefeito se esquiva de responsabilidade de ter participado ativamente, inclusive com a disponibilização de advogado, pelo trancamento de investigação no STF; ele afirma que secretárias se sentiram “injustiçadas”
Uma semana após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes que trancou as investigações da Operação Barriga de Aluguel contra sua gestão, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), deu uma declaração à Revista Veja, edição deste domingo (8), se esquivando da responsabilidade de ter levado petição ao Supremo no sentido de barrar investigações na sua gestão.

Para se descolar da imagem de quem se articula com os poderosos para se blindar contra inquéritos, o prefeito fez uma declaração destoante da realidade ao minimizar a ação anti-investigação a uma iniciativa decorrente apenas do desejo e da ação de três secretárias de sua administração. A petição apresentada ao STF, no entanto, também foi assinada pelo Partido Socialista Brasileiro, da qual é presidente nacional, e teve como advogado Rafael Araripe Carneiro. Seu escritório é contratado oficialmente por Campos via diretório nacional do partido por mais de R$ 1,3 milhão por ano (valor de 2025).

“Não sou contra investigação feita dentro da lei, mas três secretárias da prefeitura se sentiram injustiçadas e, por conta própria, buscaram a Justiça”, afirmou Campos na matéria assinada pelo repórter Pedro Jordão, que discorre sobre o clima de disputa eleitoral antecipada em Pernambuco entre os grupos da governadora Raquel Lyra (PSD) e do prefeito da capital pernambucana. Um vídeo do prefeito afirmando que “não tolera corrupção” tem sido muito criticado por opositores justamente pela incoerência de ter trabalhado ativamente para impedir as investigações na sua gestão.
De acordo com o próprio G1 Pernambuco, que deu a notícia do trancamento da investigação em primeira mão, ainda na noite do sábado (31), “a petição é apresentada pelo PSB, partido do prefeito João Campos, e subscrita pelas secretárias”.
As investigações já foram alvo de outras ofensivas como a que levou ao escândalo do fura-fila do concurso, quando um candidato que não foi inscrito como PcD foi nomeado dois anos e meio após a homologação do concurso. Isso ocorreu semanas após o pai do candidato, que é juiz, ter anulado em decisão tomada em tempo recorde todo o inquérito do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE).

A própria decisão de Gilmar Mendes, num processo que corre em segredo de justiça, mas que rapidamente vazou para o próprio prefeito, ainda no sábado, quando gravou um vídeo, deixa evidente que a petição 15.115 “trata-se de petição inicialmente apresentada nos autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n. 1017, proposta pelo Partido Socialista Brasileiro, e que foi desentranhada para formar os presentes autos autônomos”. Ainda na matéria, o ministro afirma que – no âmbito deste processo desentranhado – o partido trouxe fatos novos: “como se extrai dos autos, sobreveio aos presentes autos a notícia formal de fatos novos trazidos ao conhecimento desta Corte por meio de petição subscrita pelo Partido Socialista Brasileiro”.
A arquitetura decisória chama atenção pelo malabarismo: o processo chegou ao STF sem passar por sorteio e já foi direto para o gabinete do ministro Gilmar a partir de argumento de que se tratava de assunto correlato à ADPF que tramitou naquele gabinete. A partir disso, a decisão de Gilmar misturou dois assuntos diversos: a investigação Barriga de Aluguel, do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE), e uma investigação preliminar da Polícia Civil em torno de um outro secretário da Prefeitura, que sequer é citado na operação do MPPE, Gustavo Monteiro.

De acordo com João Campos, as secretárias Luciana Albuquerque (Saúde), Maíra Fischer (ex-Finanças e atualmente em Administração) e Adynara Maria Queiroz (ex-secretária de Trabalho do Recife) se sentiram “injustiçadas” pela investigação do MPPE. O grande problema evocado pelas servidoras públicas teria sido um ofício enviado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do MPPE, de 21 de outubro de 2025, requisitando documentação de evolução patrimonial relativa às agentes públicas nos últimos cinco anos (cópia de declaração de imposto de renda ou declaração de bens e valores que compõem os respectivos patrimônios privados).
As três secretarias de responsabilidade de Luciana Albuquerque, Maíra Fischer e Adynara Maria Queiroz, que se sentiram injustiçadas com o pedido do MPPE, segundo o prefeito, foram responsáveis por pagamentos milionários a uma construtora do interior de Minas Gerais que sequer tem filial em Pernambuco ou no Nordeste e também não participou de licitação da Prefeitura para ser contratada. A partir disso, construtoras locais – já conhecidas da gestão do PSB – assumiriam os trabalhos, com suspeitas de pagamentos duplicados, equívocos propositais na fiscalização, enriquecimento ilícito e lavagem de capitais.
Das três secretarias, o maior volume gasto com essa construtora de Minas Gerais veio da Secretaria de Saúde, que chancelou o pagamento de centenas de boletins de medição para manutenção predial em unidades de saúde como policlínicas, unidades básicas e academias da cidade. A Secretaria de Finanças pagou à Sinarco por várias supostas intervenções na sua própria sede, que fica no prédio da Prefeitura, e a Secretaria de Trabalho teria reformado praticamente todas as unidades profissionalizantes e de atendimento da Pasta a partir desse contrato com graves indícios de fraude.