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Ranilson Ramos contraria parecer técnico do próprio TCE e libera contratação com indícios de fraude de pacotes de intercâmbio pela Prefeitura do Recife

Trabalho técnico da equipe concursada do Tribunal foi desconsiderado, prevalecendo decisão política; indícios de gravidade levaram sugestão de envio dos autos para a Polícia Federal

Recife, 13/05/2026, 17h43

O conselheiro Ranilson Ramos ignorou os achados apontados em cinquenta páginas de relatório técnico do próprio Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), que se posicionou pela concessão de medida cautelar para impedir contratação com indícios de fraude de 121 pacotes de intercâmbio pela Prefeitura do Recife, e liberou a contratação da Real Tur Representações, com sede em Piedade, Jaboatão. O corpo técnico, inclusive, recomendou o envio dos autos para o Ministério Público do Estado de Pernambuco e para a Polícia Federal.

Ranilson Ramos é conselheiro desde 2013, foi secretário do governo Eduardo Campos, deputado estadual e seu filho, Lucas Ramos, é deputado federal pelo PSB e defensor do projeto eleitoral do ex-prefeito do Recife João Campos. No fim de 2025, ele arquivou um pedido de cautelar que tentava impedir que professores e demais beneficiários dos precatórios Fundef do Recife fossem obrigados a pagar 20% de honorários a escritórios de advocacia. O Ministério Público de Contas contestou e Ramos decidiu instaurar uma auditoria especial.

Conselheiro ignorou achados da equipe técnica e liberou contratação – Fotos: Alisson Maria/TCE e Marlon Diego/PCR

Em afronta ao material elaborado pela Gerência de Fiscalização de Procedimentos Licitatórios – GLIC do Tribunal, o conselheiro liberou a contratação dos pacotes a uma empresa com suspeitas de atuar como fachada de um grupo proibido de contratar com o poder público. A decisão dele foi referendada nessa terça-feira (12) na 1ª Câmara do TCE com os votos dos conselheiros Dirceu Rodolfo e Rodrigo Novaes.

As denúncias – anexadas de um dossiê de centenas de páginas – foram apresentadas pela Seda Intercâmbios, de São Paulo, que também impetrou na justiça estadual um pedido de mandado de segurança, ainda não analisado.

Parecer técnico ignorado pela relatoria confirmou indícios de graves irregularidade na licitação

Segundo o relatório técnico contrariado pelo relator, os quatro principais argumentos para barrar a licitação com indícios de fraude são “procedentes”. Segundo a matéria, que é pública, a licitação em questão apresenta “evidências de déficit de publicidade nas diligências, inconsistências contábeis não saneadas e a precariedade na motivação que sustentou a habilitação da vencedora”.

Leia mais: Prefeitura do Recife é acusada de burlar regras e fraudar compra de pacotes de intercâmbio a empresa “fachada” de grupo proibido de contratar até 2031

Ainda conforme a apreciação técnica, sugeriu-se a “suspensão imediata de qualquer pagamento à Real Tur Representação; anulação do ato de habilitação da empresa e todos os atos administrativos posteriores; retorno do processo licitatório à fase de julgamento da habilitação e a apresentação do Estudo Técnico Preliminar (ETP) que justificasse a indispensabilidade da antecipação de pagamento”.

De acordo com os autos, o conglomerado da empresa contratada pela Prefeitura do Recife já causou prejuízos milionários em intercâmbios estudantis contratados pelo governo Paulo Câmara no ano de 2019 e funciona a partir de criação de sucessão de pessoas jurídicas para burlar sanções que proíbem sua contratação.

Um dia após a decisão do conselheiro, registrada em 29 de abril, a Prefeitura do Recife agiu rápido e liquidou 82% do valor empenhado para a Real Tur Representações Ltda., empresa escolhida sob questionamentos, garantindo o pagamento de R$ 4,4 milhões dos R$ 5,3 milhões contratados na semana seguinte, especificamente no dia cinco de maio.

Um dia após decisão de Ranilson Ramos, Prefeitura liquidou antecipadamente 82% do valor contratado

Para justificar a negativa da cautelar, o conselheiro afirmou que “as questões suscitadas pela Representante demandam dilação probatória profunda e exauriente, incompatível com o rito sumário da medida cautelar, e que a suspensão do ajuste neste estágio geraria risco de dano reverso ao interesse público e à política educacional do Município” e que há “ausência de indicação de dano financeiro direto e imediato ao erário”.

O fato mais uma vez chama atenção para a desconexão entre a equipe técnica da Corte de Contas estadual e a decisão política dos conselheiros abrindo margem para questionamentos sobre a credibilidade das decisões do TCE-PE. Ao custo previsto de R$ 830 milhões para o ano de 2026, o Tribunal de Contas de Pernambuco é referência nacional por conta do seu corpo técnico, concursado, mas enfrenta questionamentos pelas possíveis ingerências políticas que rondariam sua cúpula.

 

 

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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