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Empréstimo do BID contratado por João Campos em 2023 tem execução atrasada com apenas 0,8% dos R$ 1,3 bi gasto com obras de contenção de encostas

Prefeitura só executou com dinheiro do BID R$ 9,9 milhões em obras de contenção de encostas desde 2023; empréstimo de cerca de R$ 1,3 bi tem execução atrasada

Recife, 05/05/2026, 10h12

Anunciado como a tábua de salvação para o problema dos deslizamentos de morros no Recife há três anos, o empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), assinado pelo ex-prefeito João Campos (PSB) em Washington em maio de 2023, apresenta lentidão na sua execução com apenas R$ 9,9 milhões dos cerca de R$ 1,3 bilhão contratados (US$ 260 milhões) com destinação efetiva para obras de contenção de encostas pagas via Programa de Requalificação e Resiliência Urbana em Áreas de Vulnerabilidade Socioambiental (Promorar).

Assinatura de contrato de empréstimo de R$ 1,3 bilhão para o Recife em maio de 2023 previa investimento maciço em obras de contenção de encostas Foto: PSB

Completados três anos desde a sua assinatura, a operação de crédito desembolsou efetivamente para os cofres públicos municipais R$ 260 milhões (20% do total), dos quais foram utilizados R$ 216 milhões, sendo R$ 9,9 milhões destinados para obras de contenção de morros em estágio inicial contratadas pelo Promorar, que só começou a licitar as obras de encostas na metade de 2025.

RAIO-X EMPRÉSTIMO BID PROMORAR PREFEITURA DO RECIFE

Valor contratado

R$ 1.300.000.000,00 100%
Valor desembolsado (recebido do BID) R$ 259.252.418,66 20%
Valor utilizado pelo Promorar com ações em áreas vulneráveis R$ 216.525.602,10

 

16,5%
Valor utilizado pelo Promorar com contenção de encostas R$ 9.953.504,51 0,8%

Chama atenção o valor gasto, a partir do empréstimo, com empresas de engenharia consultiva, responsáveis por gerenciamento, projetos e atividades meio: enquanto a contenção de encostas ficou com R$ 9,9 milhões, os contratos de consultoria técnica já receberam R$ 50 milhões, destacando-se a TPF Engenharia (R$ 19 milhões), a Engeconsult (R$ 16 milhões) e a Colmeia Engenharia (R$ 15 milhões).

Entre as ações efetivas realizadas com os recursos do BID nesse período, podem ser citadas a construção da Unidade de Saúde da Família da Comunidade do Bem, na Imbiribeira, a urbanização das comunidades Irmã Dorothy, Beira da Maré e Nova Esperança, também na Imbiribeira, a urbanização integrada e o complexo de lazer na Vila do Papel/João Paulo II, na Joana Bezerra, a requalificação do Campo do Sena e o início da dragagem do Rio Tejipió (850 metros).

Os dados levantam questionamentos sobre o ritmo da execução do programa firmado junto ao BID e também a respeito das prioridades da gestão do PSB em torno dos recursos liberados pela operação de crédito internacional em meio às consequências das chuvas no Recife e Região Metropolitana. Os dados acendem o alerta para necessidade de apuração sobre a execução do dinheiro dos empréstimos pela Câmara do Recife e demais órgãos de controle.

Na capital pernambucana, três vítimas morreram nas chuvas da última sexta-feira (1º). O anúncio do empréstimo junto ao BID foi uma tentativa de resposta da gestão João Campos à tragédia das chuvas de maio de 2022, quando dezenas de recifenses perderam as vidas.

O principal objetivo do empréstimo do Banco Interamericano é a urbanização de áreas de risco, conforme a própria divulgação do PSB: “Com o programa ProMorar, viabilizado pela maior operação de crédito internacional já realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com um município, no valor de R$ 2 bilhões, a perspectiva é realizar 100 grandes obras de contenção de encostas a cada ano na cidade”, registra o site do partido. A soma incluiu outros cerca de R$ 500 milhões emprestados pelo BID para melhoria da gestão pública no âmbito fiscal.

Atualmente, são seis contratos (de seis lotes distintos) firmados entre o Promorar e consórcios de empresas para obras de contenção e estabilização de encostas e urbanização integrada em áreas de vulnerabilidade socioambiental abrangendo 16 bairros: Dois Unidos, Água Fria, Brejo da Guabiraba, Passarinho, Dois Irmãos, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Mangabeira, Alto José Bonifácio, Linha do Tiro, Sítio dos Pintos, Cohab, Coqueiral, Jordão, Várzea e Ibura. No total, essas obras foram contratadas por R$ 192,3 milhões, dos quais apenas R$ 9,9 milhões foram realizados.

Das seis obras, duas apresentam execução efetiva: tratam-se dos lotes 20 (R$ 3,14 milhões executados de um total de R$ 32,4 milhões previstos) e 21 (R$ 6,7 milhões executados de R$ 41,3 milhões contratados). As obras contemplam barreiras em Dois Unidos, Água Fria e Brejo da Guabiraba (lote 20) e Várzea, Cohab, Ibura e Jardim Jordão (lote 21). As duas estão em fase inicial.

A maior parte das obras de contenção de encostas realizadas em 2024 e 2025 pela Prefeitura foi realizada via Autarquia de Urbanização do Recife (URB) com recursos de empréstimos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

 

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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