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Revelações de corrupção sistêmica na Prefeitura do Recife levam PSB a ativar vacina para desacreditar questionamentos e investigações

EDITORIAL

Ao ser flagrado usando a caneta e infringindo um calhamaço de leis e regras de um concurso público para nomear ilegalmente como procurador judicial o filho de um juiz que há poucas semanas havia anulado uma investigação de corrupção contra sua gestão, o prefeito João Campos (PSB) descortinou algo que já se sabia, mas não era tão público assim: a estrutura de poder montada pelo PSB na Prefeitura é embalada por um esquema de obtenção de muito, muito dinheiro, diríamos, de origem duvidosa… E a qualquer sinal do esquema vir à tona de forma mais consistente, ativa-se com a arma que for o modo blindagem.

Sim, a estruturação do poder e a busca pela perpetuação de um grupo em postos chaves do Estado se consolidou e se espraia a partir de movimentação de quantias gigantescas de recursos que transitam pra lá e pra cá em carros brancos (ou coloridos). Apoios políticos, mesadas, votos. Terceirizados. Empresas fantasmas. Um enredo que no limite se assemelharia a práticas do próprio crime organizado. Entre os personagens, apareceu até um “Sítio LTDA.”, que ao menos no contrato vende de imóveis a sêmen de equinos e pertence aos mais importantes integrantes do núcleo duro da Prefeitura, coincidentemente os melhores amigos do alcaide.

Afora a risível declaração jogada ao vento, em vídeo típico do marketing do PSB, de que “não tolera corrupção”, João Campos não tem muito o que fazer para ser “descarimbado” como político pouco afeito à integridade, o compliance do setor público. As evidências e provas da malversação de recursos provenientes dos impostos dos recifenses é algo cada vez mais concreto e facilmente identificável. E se avolumam.

Detentor de uma votação avassaladora que garantiu sua reeleição em 2024 (quase 80% dos votos) e acostumado a sempre controlar o cenário, incluindo um excelente trânsito nos órgãos de fiscalização e até mesmo no Judiciário, o alerta do prefeito e seu entorno foi ligado quando, em 14 de agosto de 2025, o MPPE deflagrou a operação Barriga de Aluguel.

O Gaeco conseguiu decisão judicial para avançar nas investigações de esquema de empreiteiras que movimentou centenas de milhões de recursos federais e estaduais beneficiando um núcleo central de empresários com ligação direta com a cúpula do PSB no Recife. Sabe-se, inclusive, que esse esquema das empreiteiras chegaria até mesmo ao núcleo familiar do prefeito.

Sob sigilo, até hoje não foram divulgados os detalhes da operação, como a lista de investigados e os achados na busca e apreensão que assombrou Casa Forte e adjacências, o avanço das diligências desencadeou uma operação abafa, coordenada pelos poderosíssimos advogados de sempre, trabalhando para impedir a continuidade do trabalho investigativo. Estava evidente o tamanho da preocupação, justificando até mesmo a absurda canetada fura-fila na noite da antevéspera do Natal de 2025 em edição extra do Diário Oficial.

Para se ter uma ideia do tamanho da operação abafa, investigações correlatas ao mesmo assunto tramitam, pela gravidade dos fatos, em vários órgãos de fiscalização de diferentes esferas, como o Tribunal de Contas da União, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal, a Controladoria Geral da União e o Tribunal de Contas do Estado. Embora não exista dúvidas de que, por força dos servidores efetivos, os trabalhos são feitos, eles têm batido de frente com o obstáculo da caneta mais forte.

Sem ter como se defender diante da clareza dos dados que apontam para as gravíssimas irregularidades com o seu, com o meu, com o nosso dinheiro, a estratégia adotada pelo PSB foi partir pra velha cantiga das investigações ilegais. A estratégia de acusar o governo de perseguição política em rede nacional, a partir de uma reportagem com claros indícios de ter sido encomendada (quanto teria custado?), é claramente uma espécie de vacina para mais revelações que possam vir por aí. O próprio secretário de Governo Gustavo Monteiro, um dos sócios do tal sítio e integrante de uma família que serve à família Campos há décadas, em vários órgãos, ganhou praticamente um salvo conduto. Não se questiona o conteúdo da denúncia, mas a investigação.

Não sejamos tolos: se a Polícia estadual fosse utilizada politicamente, não sobraria pedra sobre pedra em Pernambuco. Aliás, bastava efetivamente que o setor de combate à corrupção da Civil (o governo do PSB chegou a fechar uma delegacia dessas em 2018, lembra?) conseguisse fazer o seu trabalho sem as intervenções e espionagens de 16 anos de blindagem dos “socialistas”…

O fato é que, da sede da Prefeitura ao comando da Assembleia Legislativa, passando até pela Câmara do Recife, ninguém foi importunado por qualquer investigação consistente da polícia local, embora evidências não faltem numa breve visita ao Portal da Transparência. Como jornalista militante no acompanhamento dos gastos públicos há 18 anos, me coloco à disposição para elencá-las a quem tiver interesse.

A estratégia é fácil e direta: ao sinal de qualquer investigação, levantar-se-á a bandeira do uso político da polícia (ou do órgão que seja), arguindo-se pela ilegalidade das provas e a nave segue… Chego à conclusão que no País Pernambuco, combater corrupção é mesmo crime. Escrevo por força da minha própria experiência.

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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