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Parecer de Romerinho Jatobá que arquiva CPI omite fatos e datas para esconder vínculo entre anulação de investigação e nomeação do filho do juiz

Seguindo o roteiro, que inclui até intervenção de Gilmar Mendes, principal aliado de João Campos na Câmara arquiva pedido de CPI e enterra investigações com base em parecer que omite os principais fatos do suposto caso de tráfico de influência

Redigido às pressas, no início da noite dessa segunda-feira (2), o parecer assinado pelo presidente da Câmara do Recife, Romerinho Jatobá (PSB), para arquivar a criação da CPI do Fura-Fila, é baseado numa narrativa que omite fatos, datas e evidências conhecidas publicamente com o objetivo de desassociar algo que parece claro: a relação entre a nomeação irregular do candidato filho do juiz  e a anulação do processo de investigação de corrupção na gestão João Campos por meio da Operação Barriga de Aluguel, do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE).

Presidente da Câmara do Recife é o mais poderoso aliado de João Campos com influência na administração do Recife – Foto: PSB/Instagram

O episódio da nomeação do filho do juiz Rildo Vieira da Silva, Lucas, dois anos e meio após a homologação do certame, contou com uma planejada ação administrativa envolvendo diversos servidores e setores da Prefeitura do Recife, incluindo a realização de exame admissional antes mesmo de o cidadão ter se tornado servidor, segundo relato do próprio candidato. Uma ousadia para poucos.

Principal aliado do prefeito na Câmara do Recife, com influência direta nos bastidores da administração municipal, Romerinho Jatobá apresentou entre os seus argumentos um cronograma que simplesmente deleta as informações principais do episódio: o prefeito João Campos só nomeou o candidato Lucas Vieira Silva, em dezembro de 2025, após o juiz Rildo Vieira da Silva anular a investigação da Operação Barriga de Aluguel, em novembro de 2025.

O parecer alega que “o ato decisório que embasou a reclassificação” foi anterior à anulação da investigação, mas na verdade refere-se apenas a um ato administrativo que ainda dependia, para ganhar efetivamente o carimbo de “decisório”, da chancela e assinatura do prefeito, o que só ocorreu em dezembro e não aparece no cronograma elencado:

Parecer esconde que nomeação só ocorreu em dezembro após confirmada a anulação da investigação da Operação Barriga de Aluguel em novembro

O encadeamento dos fatos, ignorado pelo presidente da Câmara, é o principal elemento investigativo da relação de tráfico de influência e nepotismo reverso e sequer é citado na peça de arquivamento. Como num jogo de ação e reação, o fato é que só se consumou a nomeação após estar cravada a anulação do processo investigativo do esquema das empreiteiras da gestão João Campos, decisão assinada pelo pai do candidato posteriormente beneficiado.

Seguindo a orientação da própria Procuradoria-Geral do Município do Recife, que pode ser inclusive uma das personagens centrais de possível investigação, o texto da Câmara registra que quando o parecer do procurador-geral, Pedro Pontes, deferiu o pedido de reconsideração da condição de PcD de Lucas Vieira Silva em 17 de setembro de 2025, o pai do candidato sequer havia sido promovido à Vara Regional de Crimes Contra a Administração e a vaga do PcD não existia nos quadros da Procuradoria. A decisão de Pedro contrariou três pareceres de procuradores efetivos.

Além do fato de que possivelmente a tramitação da transferência do magistrado de Carpina para a Vara que julga corrupção no Recife já estivesse encaminhada (a criação da Vara Regional e as mudanças na estrutura já eram públicos), também era de conhecimento nos corredores da Prefeitura que um procurador – que já tinha tempo de aposentadoria – pediria o afastamento muito em breve.

Caso não houvesse relação entre a nomeação e a anulação, o prefeito teria nomeado o candidato Lucas Vieira Silva imediatamente após o surgimento da vaga, em dois de outubro. Não fez. Esperou mais de dois meses, justamente o período em que o magistrado Rildo Vieira assumiu uma das vagas na Vara, recebeu o processo e anulou a investigação.

ESQUEMA DAS EMPREITEIRAS – Anulada por decisão do juiz Rildo Vieira da Silva em novembro, depois liberada por decisão da Segunda Câmara do Tribunal de Justiça de Pernambuco, e novamente trancada por decisão monocrática de Gilmar Mendes a pedido de secretárias municipais junto a um advogado do PSB Nacional, a Operação Barriga de Aluguel investiga suposto esquema de contratações irregulares de empreiteiras para realização de obras de manutenção predial em mais de 600 equipamentos públicos de seis secretarias da Prefeitura.

O principal elemento é a contratação sem licitação própria de uma empreiteira do interior de Minas Gerais, a Construtora Sinarco, que recebeu mais de R$ 110 milhões de 2022 a 2025, mesmo sem ter filial ou sede no Recife, em Pernambuco ou no Nordeste. Ela repassava os serviços para construtoras que já eram contratadas pela Prefeitura e já recebiam pelos serviços, havendo indícios de pagamento em duplicidade. No total, o conjunto de empreiteiras recebeu mais de R$ 210 milhões no período. Há indícios de burla a processos licitatórios, enriquecimento ilícito e uso de recursos públicos do SUS para financiamento de campanhas eleitorais.

Além do MPPE, a investigação teria avançado no Tribunal de Contas da União e na Polícia Federal.

 

 

 

 

 

 

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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