A Prefeitura do Recife leiloou à iniciativa privada, na manhã dessa quinta-feira (6), mais especificamente aos banqueiros da Faria Lima, os precatórios do Fundef dos professores do Recife com um desconto de R$ 124 milhões. Abriu mão de direito garantido e muito celebrado pela gestão e pelos professores no início do ano. O leilão público teve como vencedor o banco Itaú Unibanco S.A., que deve depositar nos próximos dias R$ 444,3 milhões em troca de um crédito futuro – e garantido – de R$ 567,3 milhões. Trata-se de muito dinheiro que o Recife está deixando de arrecadar simplesmente para adiantar os créditos pra “ontem’”.
O fato é que praticamente o leitor não encontrará nenhuma informação sobre o assunto por aí. Parece assunto proibido. O Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife (Simpere), principal braço de articulação dos docentes, até o momento não se pronunciou claramente nas redes sociais e vários políticos – deputados, vereadores e pré-candidatos às eleições de 2026 – com significativa militância na área não deram um pio. É mesmo um silêncio ensurdecedor.
Nomes como a vereadora Kari Santos (PT), a deputada estadual Dani Portela (PSOL) e a senadora Teresa Leitão (PT), com tradição na luta pela educação pública, e foco especial nos seus profissionais, até aqui silenciaram. Não se sabe se porque concordam com a operação de leilão a um banco privado – com deságio de 21,8% -, de direito garantido pela classe, se vislumbram outros benefícios ou se preferem o silêncio para não afrontar o prefeito João Campos (PSB), aliado político, e cuja gestão patrocinou a medida no sentido de socorrer o erário às vésperas das eleições estaduais.
Parte dos recursos leiloados – com o desconto de mais de 20% – é direito garantido dos professores da rede municipal de ensino no período 1998-2006. Isso porque dos R$ 567,3 milhões oferecidos aos grandes bancos privados, R$ 63,5 milhões dizem respeito ao principal da dívida da União com o município do Recife, parcela que deve cair, numa proporção de 60%, para os professores que atuaram no período. A partir do momento que a gestão vende com desconto, está tirando dos professores. Por outro lado, sim, deve adiantar o pagamento.
Num exercício de imaginação, como seria se outro governo, outro prefeito, prefeita, governador ou governadora, não ligado às “causas” e aos “interesses” sindicais propusesse operação semelhante? Certamente a Agamenon Magalhães fecharia, a sede do Poder seria cercado e as redes sociais estariam lotadas de indignados. Mas parece que, nessa pouco credível republiqueta “libertária”, a indignação virou ingrediente seletivo. Depende de vários fatores, outros e muitos tantos!