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Virada Recife 2026 repete modelo e terá Itaipava e empresa de bet como patrocinadoras; dinheiro não entra para a Prefeitura

Ausência de transparência sobre patrocínios milionários – repassados a empresas privadas que não participaram da licitação – chama atenção e reforça necessidade de auditoria nas contas dos anos anteriores e no atual

O evento de Réveillon da Prefeitura do Recife em 2026, na praia do Pina, segue o mesmo modelo praticado nas viradas de 2024 e 2025, marcado pela falta de transparência, indícios de fraudes na prestação de contas e favorecimento a empresas com influência política na gestão do prefeito João Campos (PSB), que atuam sem participar da licitação.

Até mesmo as empresas envolvidas e o modus operandi da comercialização da área VIP e dos camarotes são as mesmas. O fato revela a necessidade de uma auditoria por parte dos órgãos de controle, a exemplo do Tribunal de Contas do Estado (TCE), e de acompanhamento da sociedade civil e da Câmara dos Vereadores.

O patrocínio da cervejaria (Itaipava), por exemplo, vincula o direito de exclusividade da venda daquela marca em toda a faixa de areia do evento, incluindo o perímetro público. Os valores, portanto, decorrentes de um direito público, não são fiscalizados e seguem para pessoas jurídicas privadas.

Divulgação da Virada 2026 vincula evento com patrocinadores privados

Vencedora de processo de licitação, a Talentos Promecc, de Jaboatão dos Guararapes, é a concessionária, ou seja, a empresa responsável pelo evento: pagará ao município do Recife apenas R$ 265,5 mil pelo direito de usar a faixa de areia e comercializá-la, através de ingressos e patrocínios, nos dias 28, 29 e 31 de dezembro. O valor é praticamente o mesmo que a Prefeitura pagou pela locação do Classic Hall, em fevereiro deste ano, para realização do Baile Municipal.

Diário Oficial do Recife de 16/10/2025

Quanto maior o lucro declarado na prestação de contas, maior a participação da Prefeitura (o índice definido em contrato a ser repassado à administração municipal é 9%). Caso exista subnotificação de receita, como os indícios em relação ao evento de 2025 indicam, prejuízo para a Prefeitura. Daí a necessidade de lupa nessa auditoria.

De acordo com o Portal Tome Conta, a Talentos já faturou R$ 153 milhões em municípios de Pernambuco – principalmente com a montagem de palcos e outras estruturas – e realizou eventos públicos com venda de ingressos em festividades como o Festival de Inverno de Garanhuns e o São João de Caruaru.

O dono da Talentos, José Rodeval, recebe o prefeito João Campos no camarote do FIG 2025

A principal questão é que a Talentos, pertencente ao empresário José Rodeval de Carvalho, vence a licitação, mas a maior parte do evento fica sob responsabilidade de outra empresa, a BG Promoções e Eventos Musicais Ltda. Apesar da reconhecida experiência na realização de grandes eventos (principalmente privados), a produtora não participa da disputa pública. Na edição do ano passado, ficou com ela a captação da maior parte dos patrocínios e a venda da área VIP. No site Recife Ingressos é possível conferir que a BG aparece como produtora do evento:

Ingressos da área VIP são vendidos a partir de R$ 480

A BG, que tem como sócio o conhecido produtor Bruno Rêgo, próximo ao deputado federal Felipe Carreras (PSB), também tem ligações com o grupo político que comanda a Secretaria de Turismo e Lazer do Recife, a família Coelho. Um dos secretários executivos da Pasta (responsável pelo relacionamento com Trade) é Rodrigo Rêgo, irmão de Bruno Rêgo.

O empresário, um dos mais conhecidos realizadores de festas privadas do Nordeste, também participa da sociedade da concessionária responsável pela gestão e comercialização em quatro dos 19 parques da cidade – Jaqueira, Dona Lindu, Santana e Apipucos, concedida pela gestão Campos por 30 anos por dois lances que totalizaram apenas R$ 342 mil.

De acordo com o material de divulgação do evento esse ano, amplamente veiculado nas redes sociais, a Virada Recife 2026 contará com os patrocínios da cervejaria Itaipava, como ocorreu nos eventos de 2024 e 2025, e da empresa de apostas online Esportes da Sorte. Na edição anterior, a empresa do setor de jogos que patrocinou o evento foi a Bet.Bet.

Não se sabe por quanto cada cota de patrocínio foi comercializada e nem se as regras contratuais que a Talentos Promecc se subordinou – conforme o termo de referência contratual – foram cumpridas: é obrigatória a disponibilização das cotas de patrocínio para o mercado, sendo escolhida a que melhor proposta. Há indícios de que a escolha foi unilateral e não respeitou o critério da publicidade. Veja o que diz a regra contratual:

Patrocínios do evento devem ser decididos de forma transparente e pública

Conforme apuração deste Blog, em documentos públicos, a prestação de contas da edição de 2025 tem indícios de fraudes que podem chegar a cifras milionárias. É que o documento, que deve ser apresentada pela concessionária à Prefeitura do Recife (concedente), através da Secretaria de Turismo e Lazer, não traz registros dos valores dos patrocínios principais – Itaipava e Bet.Bet – como se nada tivessem pago. A Itaipava, por sua vez, tem seu marketing regional comandado pelo mesmo grupo da BG Promoções.

Leia mais:

 

Prestação de contas da Virada Recife 2024/2025 tem indícios de fraude milionária e benefícios a produtoras ligadas ao prefeito

 

Após revelação de fraudes, gestão João Campos restringe acesso à prestação de contas da Virada Recife 2025

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Manoel Medeiros

Jornalista e economista recifense, com trajetória na comunicação e gestão pública.

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